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Dicas para facilitar a escolha do espumante

  Existe uma infinidade de espumantes no mercado, indicados para as mais diversas harmonizações e ocasiões. Hoje vou falar um pouco sobre os principais estilos de espumantes e explicar alguns termos encontrados no rótulo que nos dão várias dicas na hora da escolha.

  O que diferencia o espumante do vinho tranquilo é a perlage, ou seja, as bolhas que se desprendem do fundo da taça até a superfície. Essas bolhas nada mais são do que gás carbônico dissolvido no vinho durante o processo de fermentação realizado em um recipiente hermeticamente fechado, impedindo que o gás formado escape. Existem vários métodos utilizados pelos vinicultores para se produzir os espumantes.

  No Método Tradicional, também conhecido como Champenoise na região de Champagne, na França, o vinho passará por uma segunda fermentação na mesma garrafa em que será vendido. É a técnica mais cara e trabalhosa, visto que a fermentação ocorrerá em cada garrafa individualmente, mas produz vinhos com grande complexidade de sabores, com notas de fermento e panificação, graças ao grande contato do líquido com as leveduras no pequeno espaço da garrafa. Normalmente, são mais encorpados e acompanham bem pratos a base de peixes e aves. Como é considerado o melhor método, geralmente virá especificado no rótulo.

  No Método Charmat, a segunda fermentação será realizada em grandes tanques de aço inox, o que diminuirá o contato do vinho com as leveduras. Como resultado teremos vinhos mais leves e frutados, com menor complexidade, e que costumam agradar bastante o paladar dos enófilos iniciantes. São ótimos para entrada, podendo ser servidos como aperitivo ou acompanhando petiscos leves. Com exceção de alguns poucos produtores, a maioria não especifica este método no rótulo, portanto, quando não há nenhuma referência à forma como o espumante foi elaborado, geralmente foi através do Charmat.

  O Método de Transferência é uma mistura dos dois anteriores, o processo iniciando em garrafa e terminando em tanques de aço inox. Foi desenvolvido para que o espumante tenha o benefício do contato maior com as leveduras adquirindo complexidade e uma diminuição de custos com a utilização posterior dos tanques. Normalmente, no rótulo virá indicado apenas "fermentado em garrafa".

  O Método Asti foi desenvolvido na região de Asti, no Piemonte, na Itália, e é utilizado para a produção de vinhos espumantes doces de teor alcoólico baixo (por volta de 7%). São muito leves, frutados, com aromas florais, de pêssego e de uva e acompanham muito bem sobremesas leves a base de frutas. Os espumantes da região de Asti terão a denominação de origem especificada no rótulo. Já os espumantes elaborados em outras regiões do mundo através deste método, farão algum tipo de referência, como "tipo Asti" ou mesmo "mètodo Asti".

  Além do método de produção, no rótulo do espumante sempre encontraremos informações referentes ao seu nível de doçura. Em uma ordem crescente com relação à quantidade de açúcar residual encontraremos os termos Brut Nature, Extra Brut, Brut, Extra-Dry, Sec, Demi-sec e Dolce. Sendo o Brut Nature um espumante sem nenhuma adição de açúcar após a segunda fermentação, mas mesmo o Extra Brut e o Brut são ainda considerados bem secos. No Demi-sec já se percebe nitidamente o açúcar residual e o Dolce já é bem doce e indicado para acompanhar sobremesas.

  A grande maioria dos espumantes são elaborados através de uma mistura de vinhos de várias safras. Isso é necessário para se preservar o estilo de determinado produtor e para compensar a diferença de qualidade das safras. Esses espumantes são classificados como Non-vintage e não terão uma safra indicada no rótulo. O ideal é que sejam comprados e consumidos o quanto antes, não sendo próprios para o envelhecimento, perdendo muito dos seus aromas e sabores. Em regiões como Champagne, na França, essa mistura de safra é essencial, devido às grandes diferenças de safras durante os anos. Nos melhores anos, em que se colhem safras muito especiais, os produtores podem escolher as suas melhores uvas, dos melhores vinhedos e optar por fazer espumantes com vinhos de um único ano. Neste caso, esses espumantes Vintage virão com a safra indicada no rótulo e, aqueles dos melhores produtores, poderão amadurecer por muitos anos adquirindo grande complexidade.

  Dentre as informações que você encontra no rótulo, a região onde aquele espumante foi produzido pode te dar muitas pistas sobre o seu estilo. O Champagne só pode ser produzido na região de Champagne, na França. Os espumantes produzidos em outras regiões do mundo não podem usar o termo, que é uma denominação de origem, com regras restritas, não apenas de localização, como de produção, envelhecimento e castas utilizadas. Todo Champagne é produzido através do Método Champenoise, ou Tradicional, e se exige um tempo mínimo de envelhecimento de 15 meses, 12 dos quais devendo permanecer em contato com as leveduras para se adquirir complexidade. As castas utilizadas são a Chardonnay, a Pinot Noir e a Meunier. Essas regras são necessárias para se manter o estilo da região e para o consumidor ter uma boa ideia do que irá encontrar ao abrir a garrafa. Em minha viagem a Garibaldi, visitei uma vinícola que ganhou judicialmente o direito de colocar Champagne nos seus rótulos. Mas apenas dentro do Brasil pois lá fora isto é totalmente proibido. Eu, particularmente, não concordo com o direito de uma vinícola do sul do Brasil usar um termo de uma denominação de origem francesa. Acredito que vai confundir os consumidores menos esclarecidos que acabarão levando pra casa gato por lebre.

  O Cremant também é um estilo de espumante francês e, apesar de ser produzido em várias regiões da França, também se submete à legislação, sendo sempre elaborado através do método tradicional e precisando passar por um período mínimo de 9 meses em contato com as leveduras. Cada região produtora de Cremant irá utilizar as castas permitidas na região.

  Cava é um estilo de espumante espanhol, também elaborado pelo Método Tradicional. Assim como o Cremant da França, pode ser produzido em várias regiões da Espanha e deve passar pelo menos 9 meses em contato com as leveduras. É elaborado, principalmente, com castas tradicionais espanholas. Em geral, são menos encorpados e com menos complexidade que os Champagnes e com um preço bem mais acessível.

  O Prosecco é outro espumante bastante conhecido. É elaborado no nordeste da Itália com a casta Glera, que antigamente era chamada Prosecco. São elaborados pelo Método Charmat e possuem boa acidez e aromas de melão e maça verde. Devem ser consumidos quando ainda estão jovens e frescos, não se beneficiando com o envelhecimento. Para se proteger a denominação de origem, o nome da casta foi alterado e nenhuma outra região do mundo pode usar o termo Prosecco para os seus espumantes. Infelizmente, sabemos que isso não é respeitado, pelo menos aqui no Brasil. Em minhas andanças pelo sul, me deparei com vários "Proseccos" nacionais.

  Existem muitas outras regiões produtoras de espumantes no mundo e vários estilos. O Brasil é um grande produtor com espumantes de alto nível de qualidade. As pessoas costumam associar a bebida das bolhas com comemorações e acabam deixando para desfrutar aquela garrafa apenas em datas festivas, o que é uma pena! Nosso clima tropical é muito propício para o consumo do espumante por ser uma bebida leve e refrescante. Mas, se for pra comemorar, que seja a vida, porque assim todos os dias teremos motivo de abrir aquela garrafa sem culpa. Aliás, é isso mesmo que eu vou fazer agora! Um brinde a todos e até o próximo texto! Cheers!

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