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As poderosas uvas italianas


  Recentemente, estive em duas degustações às cegas com o tema de vinhos italianos e a potência e estrutura de vários desses vinhos me inspirou a escrever este texto. A Itália é um país de grande tradição vinícola e o seu território serve de lar a castas muito singulares, capazes de produzir vinhos únicos, poderosos e de grande guarda. Para quem gosta de vinhos com muito corpo, tânicos e muito estruturados, a sessão italiana da loja de vinhos é uma parada obrigatória. É claro que em um país com tanta tradição e diferentes tipos de terrois, os estilos são muito diversos. Podemos encontrar desde vinhos leves e fáceis de beber como os Bardolinos e os Valpolicellas, como vinhos de médio corpo como os Barberas e os Dolcettos e os poderosos e encorpados, que são o tema da publicação de hoje.
  De norte a sul, encontramos vinhos marcantes e únicos na Itália. Na região noroeste, ao sopé dos Alpes, fica o Piemonte, lar da Nebbiolo, casta que produz dois dos mais famosos vinhos italianos e sonho de consumo da grande maioria dos enófilos. Com alto nível de acidez e taninos, mas pouca cor, a Nebbiolo é capaz de produzir vinhos de muito corpo e ótimo potencial de envelhecimento. Em Barolo DOCG, os vinhos devem ser envelhecidos por pelo menos três anos antes de serem lançados no mercado, sendo que dezoitos meses devem ser passados em madeira. São vinhos de grande estrutura e que se mostram muito austeros quando ainda jovens, se beneficiando bastante de um período extra de envelhecimento em garrafa. Um Barolo de um produtor conceituado, quando no seu auge, é capaz de proporcionar belas experiências sensitivas com a sua potência, equilíbrio e complexidade. Em Barbaresco DOCG, a Nebiollo assume um caráter menos austero, mais frutado, apesar de manter sua estrutura, altos níveis de acidez e taninos e a sua capacidade de envelhecimento. Os vinhos devem ser envelhecidos por dois anos antes de irem para o mercado, sendo pelo menos nove meses em madeira de carvalho, e se beneficiarão de mais alguns anos em garrafa. Devo lembrar que, para que o vinho se desenvolva bem em garrafa, a mesma deve ser armazenada em condições propícias. Um local fresco, sem grandes variações de temperatura, sem incidência de luz direta e sem vibrações.
  No nordeste da Itália, encontramos o Veneto, uma das maiores regiões produtoras de vinho do país. A maior parte da sua produção, consiste em vinhos brancos e tintos leves e fáceis de beber, como é o caso do Valpolicella, elaborado principalmente com a casta Corvina, uva nativa da região, com pele fina, cor moderada, poucos taninos e acidez alta, mas capaz de produzir um vinho poderoso através do método do passito. Para se elaborar o Amarone della Valpolicella DOCG, as uvas são colhidas cedo, para se preservar uma ótima acidez, e são deixadas a secar em um local fechado e arejado, concentrando-se assim os açúcares e sabores. Essas uvas passificadas produzem vinhos com muito corpo, níveis altos de álcool e taninos e sabores muito concentrados, bem diferentes dos vinhos leves produzidos com as uvas frescas.
  Na região central, ao longo da costa ocidental, encontramos a Toscana, o lar da casta Sangiovese, com seus níveis altos de acidez e taninos. Em sua parte norte, ao sopé dos Apeninos, fica a sub-região de Chianti. Em Chianti Clássico DOCG, é obrigatória a presença de pelo menos 80% de Sangiovese no corte, podendo chegar a 100%. Os vinhos devem ser envelhecidos por pelo menos doze meses antes de serem lançados no mercado e se beneficiam bastante de alguns anos a mais na garrafa. Mas é na parte sul da Toscana que a Sangiovese mostra todo o seu poder. Em Brunello di Montalcino DOCG, os vinhos devem ser elaborados com 100% da Sangiovese. O clima mais quente da região, propicia a elaboração de vinhos mais intensos e com mais corpo. A legislação local estabelece que devem passar por um envelhecimento de cinco anos antes de chegarem ao mercado, dois dos quais em carvalho. Mesmo assim, quando são lançados, ainda se mostram austeros e necessitam mais tempo de guarda para amaciar os taninos e o álcool. Em Vino Nobile de Montepulciano DOCG, também na parte sul da Toscana, a Sangiovese pode ser usada em um corte, junto com outras uvas permitidas na legislação e o vinho deve ser envelhecido por dois anos antes de ser lançado no mercado. São vinhos menos austeros que os Brunellos e necessitam de menos tempo em garrafa, mas ainda capazes de mostrar todo o potencial da casta.
  Ainda na Toscana, mas agora na plana região costeira, surgiram os famosos Super-Tuscan, antes conhecidos como "vinhos fora da lei". Alguns produtores, insatisfeitos com as restritas regras da legislação, resolveram elaborar vinhos com castas internacionais, principalmente as de Bordeaux, que não eram permitidas na região. Esses vinhos não puderam ser rotulados com uma denominação de origem, por terem infringido as regras da região. Apesar disto, fizeram enorme sucesso e foram vendidos a preços superiores, ganhando merecidamente o nome de Super Toscanos. Tamanho sucesso incentivou outros produtores a também investirem em castas internacionais e hoje já existem na Toscana duas denominações de origem que reconhecem como legítimos os antigos "fora da lei", Bolgueri DOC e Maremma Toscana DOC.

  Também ao longo da costa ocidental, mas agora na região sul da Itália, em Campânia, encontramos a Aglianico, casta que produz vinhos poderosos, de cor profunda e com níveis altos de acidez e taninos. Ela é cultivada em toda a região, mas o Taurasi DOCG é o vinho que exibe todo o seu potencial e estrutura, necessitando também de grande guarda para atingir o seu auge e exibir suas melhores características. Tive o privilégio de degustar três Taurasis no intervalo de quatro dias dos dois eventos de vinhos italianos, safras de 1999, 2007 e 2009, respectivamente, e me surpreendi com a grande diferença de estilo de acordo com o grau de evolução. Uma grande experiência!
  Na costa oriental, exatamente no salto da bota, encontra-se a região de Puglia, famosa por seus vinhos a base da casta Primitivo, conhecida como Zinfandel na Califórnia. Grande parte da região, foca na alta produção e elaboração de vinhos comerciais e fáceis de beber. Mas em Primitivo di Manduria DOC, os vinhos mostram-se potentes, encorpados, com alto teor alcoólico, taninos poderosos e sabores de fruta negra adocicada.
  Também na Sicília, o maior foco da produção está em vinhos simples e fáceis de beber. Mas a Nero d'Avola, casta predominante da ilha, é capaz de produzir vinhos concentrados e complexos, que se beneficiam com a maturação em garrafa.
  Degustar os poderosos vinhos italianos é sempre uma grande experiência e comprar uma dessas garrafas, guardar por anos até que atinja o seu auge, na maioria das vezes, se mostra muito compensador. Vou ficando por aqui e quero avisar que estarei ausente durante o mês de junho pois estarei investindo o meu tempo em mais conhecimento sobre esse assunto de que tanto gosto. Mas em julho voltarei com muitas novidades e um novo diário de viagem. Um ótimo mês a todos e até julho! Cheers!

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