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Outras cinco curiosidades sobre videiras, uvas e vinhos

  Conforme prometido na publicação anterior, hoje vou falar sobre mais cinco curiosidades do mundo dos vinhos. Para manter uma sequência na leitura, no texto anterior falei sobre origens e produção e hoje vou falar de curiosidades sobre as videiras, envelhecimento do vinho, degustação e benefícios da bebida dos deuses à nossa saúde.

  6- Tipos de uvas próprias para a produção do vinho
  Existem cerca de 1000 espécies da Vitis Vinífera, videiras que produzem uvas próprias para a produção de vinhos, mas apenas cerca de 50 espécies são mais utilizadas e difundidas pelo mundo. Entre as castas mais conhecidas podemos citar:  Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Malbec, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling, entre outras.
  Muitas são castas autóctones e são produzidas apenas na sua região de origem. Portugal, apesar do seu pequeno tamanho, é um dos países com maior número de castas autóctones, sendo contabilizadas cerca de 300 castas. Além da grande diversidade, os portugueses são muito criativos na escolha dos nomes das suas uvas. Alguns exemplos são a Baga, a Castelão, a Trincadeira, a Tinto Cão, a Bical, a Encruzado, a Maria Gomes, entre outras.

  7- Videira enxertada ou com pé franco
  O termo "Pé franco" pode ser encontrado em alguns rótulos, mais comumente em vinhos chilenos, e o seu significado está relacionado com as videiras que produziram as uvas utilizadas na sua elaboração.
  No final do século XIX, um inseto chamado filoxera, nativo da América do Norte, chegou acidentalmente na Europa e destruiu os vinhedos do continente. Este inseto, na primeira fase do seu ciclo de vida, vive debaixo da terra e se alimenta das raízes da videira. Descobriu-se então, que a Vitis americana, espécie de videira originária no continente americano e que produz as uvas que compramos no supermercado e os vinhos de mesa (aqueles de garrafão), produz uma seiva que impede a ação da filoxera, sendo, portanto, resistente ao inseto. A solução encontrada foi enxertar  as Vitis viníferas em raízes de Vitis americana. Hoje em dia, quase toda a plantação de Vitis vinífera é feita através de porta-enxertos. As pouquíssimas videiras não enxertadas são chamadas de pé franco. O Chile é o único país que, por causa das suas barreiras naturais, a filoxera não conseguiu se desenvolver e grande parte das videiras ainda não são enxertadas. Em outras partes do mundo, são raras as regiões em que o solo arenoso impede o crescimento do inseto e permite a plantação de videiras sem o porta-enxerto.
  Se existe alguma diferença entre vinhos produzidos com videiras enxertadas ou não, é algo muito sutil e controverso. O fato é que os porta-enxertos se mostraram úteis não só por causa da filoxera, como também são utilizados para aumentar a resistência à outras pragas e até mesmo à seca. Mas, como estratégia de marketing, alguns produtores gostam de colocar no rótulo que as suas videiras são pé franco, deixando subentendido que são plantadas com menor intervenção humana.

  8- Com o envelhecimento, o vinho branco escurece e o tinto clareia
  É assim mesmo que acontece! Com o envelhecimento, o vinho tinto vai perdendo a sua coloração púrpura e avermelhada, começa a adquirir tons granada, até se tornar acastanhado. Já os vinhos brancos fazem o caminho inverso, perdendo os seus reflexos esverdeados e começando a adquirir tons dourados. Mais tarde se tornam âmbar e, por fim, castanhos.
  No caso dos vinhos tintos, isto acontece porque os antocianos, moléculas responsáveis pela cor do vinho, sofrem a ação do envelhecimento, perdendo a cor e, após grande guarda, se ligam às moléculas dos taninos e se precipitam, formando aquela borra presente nos vinhos de maior idade. Já nos brancos, o escurecimento se dá pelo processo de oxidação que o vinho sofre ao longo dos anos.
  O curioso é que, ao final da vida, brancos e tintos terão a mesma cor castanha.

  9- Porque girar a taça
  Já ouvi muitas pessoas criticando o fato de girarmos a taça e cheirarmos o vinho. A análise olfativa é um passo importante da degustação. O vinho possui aromas muito diversos aos presentes na uva. Seus componentes voláteis possuem moléculas também existentes em aromas familiares. Por isto, é comum sentirmos o cheiro de algo que não está presente no vinho. Entre os aromas mais comuns podemos citar ameixa, cereja, morango, framboesa, rosas, chocolate, café, menta, cedro, carne defumada, cogumelos, entre outros, para os tintos e pêssego, abacaxi, maracujá, maçã verde, limão, flor de laranjeira, arruda, camomila, mel, baunilha, manteiga, entre outros, para os brancos.
  Mas por que girar a taça? Em primeiro lugar, ao agitar o vinho e fazê-lo girar contra a parede da taça, essas moléculas se quebram e se volatilizam, evaporando rapidamente. Por isto, a  maioria das taças possui a boca mais estreita, para melhor concentrar estes aromas. Além disso, o movimento proporcionará maior contato do líquido com o oxigênio, o que trará ao vinho interações químicas que transformarão esses aromas, mudando as suas características e trazendo complexidade aromática e novas sensações. Portanto, quando estiver tomando um vinho, gire a sua taça e cheire, sem medo de ser feliz! Você vai perceber como a sua experiência de degustação ficará muito mais interessante!

  10-Beber vinho faz bem a saúde
  Mais que uma curiosidade, essa é uma ótima notícia! Vários estudos científicos já demonstraram que beber uma taça de vinho por dia traz muitos benefícios. Vários estudos epidemiológicos combinados comprovaram que o consumo regular moderado do vinho reduz em até 20% o risco de doenças cardíacas. O fato é que os polifenóis presentes no vinho tinto reduzem a formação de placas de gordura, aumentam o colesterol bom (HDL) e a capacidade dos vasos sanguíneos de se dilatarem, diminuem o mau colesterol (LDL) e previnem a trombose. Esses mesmos polifenóis também mostraram ter efeitos benéficos sobre o açúcar no sangue e a função da insulina, diminuindo, portanto, o risco do diabetes.
  Estudos recentes relataram uma redução significativa do risco de demência ou Alzheimer em pessoas que fazem consumo moderado de vinho tinto. Ele previne a deterioração da memória e o desenvolvimento de alterações no cérebro.
  Além disso, outros estudos demonstraram que o vinho reduz os sintomas da depressão, retarda o crescimento de células do câncer de mama e da próstata, além de evitar o desenvolvimento de tumores na boca. Reduz o risco de doenças renais, melhora a circulação periférica e fortalece o sistema imunológico.
  Finalmente, o antioxidante resveratrol, presente na casca das uvas tintas, possui propriedades anti-envelhecimento e contribui para o aumento da expectativa de vida.
  Aliado a todos esses benefícios, não posso deixar de falar que o vinho aproxima as pessoas. Digo isto pensando em todos os amigos que fiz desde que resolvi me dedicar a aprender mais sobre a bebida dos deuses. Apaixonados por vinhos estão sempre dispostos a se reunir e dividir experiências. Reuniões estas sempre regadas, é claro, ao delicioso elixir de Baco. A vocês, amigos do vinho, vai o meu brinde de hoje! Até o próximo texto! Saúde!









  

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