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Diamantina - Terra de vinhos, queijos e a famosa hospitalidade mineira.

   Recentemente, passei por belas experiências de aprendizado em vinícolas, algumas distantes e outras bem pertinho daqui. Estas viagens vão render muito assunto pra matérias aqui no Vinho às Claras. Como sou uma entusiasta dos vinhos nacionais, resolvi começar falando da última viagem, realizada a pouco mais de uma semana para uma cidade bem próxima, a apenas 296 km de Belo Horizonte, Diamantina.
   A algum tempo atrás, publiquei um artigo falando sobre os vinhos de Minas e a técnica da dupla poda. Agora tive a oportunidade de visitar e ver pessoalmente o trabalho desenvolvido por vinícolas mineiras e posso afirmar que é apaixonante testemunhar o amor e o empenho envolvido na produção dos nossos vinhos.
   A viagem foi organizada pelas queridas Vanessa e Eveline, criadoras da confraria feminina Luluvinhas. No último dia 03, eu e mais 18 Lulus saímos de BH para conhecer a produção de vinhos e queijos da região. No dia seguinte, tínhamos programadas visitas à Vinícola Campo Alegre, pertencente a associação dos vinicultores de Diamantina e à Vinícola Quinta D'Alva, a mais antiga da região.
   No sábado, o Sr. João Francisco, Chico como gosta de ser chamado, proprietário da vinícola Quinta D'Alva e membro da associação, e o agrônomo Mateus, responsável pelo cultivo das videiras pertencentes à Vinícola Campo Alegre, nos recepcionaram no hotel e nos acompanharam durante as visitações.
   A associação foi criada em 2010 e conta hoje com 12 integrantes. Os produtores receberam subsídios para a plantação de 0,3 hectares e se comprometeram a plantar mais 0,7 por conta própria e completar um héctare. Inicialmente, foram plantadas mudas das tintas Cabernet Sauvignon, Syrah, Merlot, Pinot Noir e Meunier e das brancas Marsane, Chardonnay e Muscat, para se avaliar quais videiras se adaptariam melhor ao terroir da região. Hoje, a produção gira em torno da Syrah, Tempranillo, Cabernet Sauvignon , Pinot Noir e a Sauvignon Blanc, que surgiu através de um engano, algumas mudas vieram misturadas a mudas de Merlot, e se adaptou muito bem à região.
   Após uma instrutiva visita aos vinhedos da Campo Alegre, onde a colheita já havia acontecido a algumas semanas, pudemos visitar a cantina da associação e o Sr. Luis Rodrigues, responsável pela parte da vinificação, nos brindou com algumas taças de Sauvignon Blanc, retirado do tanque de aço inox e ainda em processo de fermentação, e de um Syrah em processo de maturação em barricas de carvalho. Foi uma experiência incrível!
   A Quinta D'Alva é considerada a primeira vinícola da região e foi para onde nos encaminhamos ao sair da Associação. Ela foi fundada em 2002 e é a meninas dos olhos do seu Chico. Ele nos guiou pelos vinhedos, explicou sobre os porta enxertos utilizados, e nos mostrou as suas videiras de Tempranillo ainda carregadas de cachos aguardando o momento de serem colhidos. Todas as uvas estavam cobertas por telas para se evitar ataques de animais, tão comum nesta fase do processo de maturação.
   Dentro da sua cantina, tivemos a oportunidade de degustar alguns dos seus vinhos ainda em maturação em barricas de carvalho e também a deliciosa grappa, destilado feito com as cascas e sementas da uva e com 44% de teor alcoólico.
   A famosa hospitalidade mineira esteve presente em todos os momentos da nossa viagem. A associação organizou uma degustação de vários dos seus vinhos enquanto almoçávamos em um restaurante no centro da cidade. Ao chegar, também fomos surpreendidas por uma belíssima tábua de queijos oferecida pelo Sr. Richard da Datas/Guzerá. Todos maravilhosos!
   A degustação contou com nove rótulos sendo um branco e oito tintos. Pudemos perceber que os mineiros estão indo pelo caminho certo e alguns vinhos surpreenderam pela qualidade. O Sauvignon Blanc da Quinta D'Alva me conquistou com sua alta mineralidade, seu cheiro de chuva e de pedra molhada. É um estilo que me agrada muito. Também da Quinta d'Alva, o blend de Tempranillo e Syrah fez muito bonito com sua elegância e ótima acidez. Entre os varietais de Syrah, o Dom Léon Alvarez, da Vinícola Campo Alegre, se mostrou muito equilibrado, elegante e de final bastante persistente. Estes foram os meus eleitos para trazer algumas garrafas pra casa.
   Após o almoço e as degustações, conversei por alguns momentos com o Sr. Chico para saber porque não existe um investimento no enoturismo na região, pois é uma área de grande crescimento, eles possuem rótulos de boa qualidade, sem falar da hospitalidade imbatível dos mineiros. Ele me esclareceu que a produção ainda é muito pequena e não seria capaz de suprir a demanda que o turismo do vinho iria provocar. Segundo ele, a Quinta D'Alva produz apenas 2000 garrafas por ano e que a associação está prevendo uma produção de 7000 garrafas no ano que vem. Se pensarmos que uma vinícola considerada boutique no Vale dos Vinhedos produz uma média de 15 a 20 mil garrafas anuais, realmente a produção da região ainda tem muito a crescer.
   No domingo pela manhã, fomos até a Fazenda Braúnas onde iríamos conhecer o processo de produção dos seus deliciosos queijos e almoçar um frango ao molho pardo antes de pegarmos a estrada de volta para BH. Fomos recebidas pelo Sr. Everton e toda a sua família e nos sentimos em casa. A dedicação e cuidado, desde a alimentação das vacas até a produção e maturação dos queijos, se fazem perceber no sabor e textura diferenciados dos queijos. Minas é realmente incrível!
   Nos próximos artigos, pretendo contar outras experiências vividas em vinícolas um pouquinho mais distantes, do outro lado do Atlântico. Ótimos brindes a todos e até um próximo texto. Saúde!


 

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