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Explorando o Vale do Loire

   Na publicação anterior, falei sobre os três dias que passei em Tokaj no mês de junho. Porém, antes de viajar para o leste europeu, estive por dez dias visitando vinícolas na França nas regiões do Vale do Loire e em Champagne. Além de belíssimos vinhos, a região nos brinda com maravilhosas paisagens e cidades que nos obrigam a tirar alguns momentos para sermos apenas turistas. Hoje vou falar sobre minhas andanças pelo vale do rio mais longo da França.
   Entramos na França através da cidade de Nantes e alugamos um carro no aeroporto. Nossa primeira hospedagem seria a poucos quilômetros, no Domaine Du Fief Aux Dames, em Monniéres. A propriedade é pequena e as instalações localizadas ao lado dos vinhedos de Melon de Bourgogne. A produção, pequena e artesanal, é toda voltada para a produção de vinhos da denominação Muscadet. Para quem não sabe, Muscadet é a denominação de origem do Vale do Loire localizada próximo ao Atlântico e principalmente ao sul do rio Loire. Dentro da denominação, são produzidos vinhos brancos secos, com acidez alta, através da casta Melon de Bourgogne, também conhecida como Melon Blanc. Muscadet abrange uma área extensa e, dentro dela, existem várias sub-classificações sendo Muscadet Sèvre et Maine, uma sub-região localizada entre o rio Loire e seus afluentes Sèvre-Nantaise e Maine, a mais conceituada. Durante a nossa estadia, nosso anfitrião, Sr. Daniel Braud, nos proporcionou uma degustação dos seus vinhos e também dos vinhos do Domaine Julien Braud, de propriedade do seu filho, que possui certificação biológica.
   Enquanto estávamos em Muscadet, tivemos o privilégio de almoçar com o sr. Bernard e sua filha Louise, proprietários da vinícola Chéreau Carré, em um agradável restaurante à beira do rio Maine. O almoço, é claro, foi regado a vinhos Muscadet do Chéreau Carré. A vinícola está localizada em Saint-Fiacre-Sur-Maine e todos os seu vinhos recebem a denominação Muscadet Sèvre et Maine. Após o almoço delicioso, nos dirigimos para a vinícola e Louise nos mostrou todas as instalações, os vinhedos e nos brindou com uma degustação dos seus principais rótulos. Depois de passar praticamente todo o dia por nossa conta, ela ainda nos convidou para um passeio a noite pela cidade de Nantes. É claro que aceitamos!
   A cidade de Nantes é grande e moderna mas possui um centro histórico com monumentos e construções que nos faziam parar a cada minuto para tirar uma foto. O passeio noturno com Louise acabou nos despertando muita curiosidade por esta bela cidade e tivemos que voltar no dia seguinte para verificar se Nantes era assim tão bonita com a luz do dia e, posso garantir, não nos decepcionamos. Louise nos levou a um Wine bar e conseguiu garimpar uma garrafa de um Comte Leloup Du Château de Chasseloire 1999. Nós havíamos degustado mais cedo na vinícola a safra de 2014 e Louise garantiu que era um vinho de grande guarda e pudemos tirar a prova e concordar plenamente com ela. É produzido com uvas provenientes de vinhas velhas, com mais ou menos cem anos de idade, e passa por um amadurecimento de doze meses em contato com as borras antes de ser engarrafado. O vinho da safra 1999 ganhou muita complexidade com os anos em garrafa, seus aromas de pêssego e frutas cítricas dando lugar aos aromas de nozes, avelãs e frutas secas.
   Nossa segunda parada foi na cidade de Tours. Como chegamos no final de semana e as vinícolas estavam fechadas, tivemos um dia livre para fazer turismo. Passeamos pelos principais monumentos da cidade, visitamos catedrais, museus e ao final da tarde caminhamos às margens do rio Loire. Na segunda feira pela manhã visitamos o Domaine Vigneau Chevreau em Vouvray. A vinícola possui certificação biológica e produz espumantes, vinhos brancos secos e doces, todos a base de Chenin Blanc. São vinhos interessantes e muito bem elaborados mas o destaque ficou por conta do Cuvée Chateau Gaillard 2008, um vinho de sobremesa a base de Chenin Blanc atacadas pela botrytis. Com uma linda coloração dourada, possui aromas de doce de laranja e frutos secos. No paladar apresenta muito corpo e untuosidade e a doçura é bem equilibrada pela alta acidez muito bem preservada apesar dos seus dez anos. O enólogo nos explicou que a safra de 2008 foi muito especial para os vinhos de sobremesa em Vouvray pois as manhãs úmidas e tardes quentes foram muito propícias para o aparecimento da botrytis e que praticamente todas as uvas deixadas na videira foram atacadas.
  Na parte da tarde, pegamos estrada até Beaulieu-sur-Layon para conhecer a nova denominação de origem de vinhos de sobremesa elaborados com a Chenin Blanc atacada pela botrytis do Vale do Loire, Quarts-de-Chaume. Visitamos o Domaine de La Bergerie e fizemos a degustação de todos os seus vinhos, incluindo os vinhos Premier Cru e Grand Cru de Quarts-de-Chaume. O portfólio da vinícola é muito extenso passando por espumantes, brancos secos e doces elaborados com a Chenin Blanc, rosés secos e meio secos elaborados com a Cabernet Franc e tintos a base de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Mas os que realmente se destacaram, mais uma vez, foram os vinhos de sobremesa. A nossa expectativa estava muito grande com relação ao Quarts de Chaume Grand Cru mas, por incrível que pareça, o Coteaux du Layon Premier Cru me agradou mais. Os dois vinhos se mostraram muito untuosos, com aromas e sabores de casca de cítricos e compota de laranja, mas achei a acidez mais vibrante no Premier Cru, deixando a doçura mais equilibrada e agradável.
   No dia seguinte, quando estávamos saindo de Tours para Sancerre, a nossa terceira e última parada, recebemos um convite inesperado e resolvemos atrasar um pouco a nossa viagem para visitar o Domaine Le Rocher des Violettes em Dierre. A produção é variada tendo espumantes e brancos, com a denominação de origem Montlouis-sur-Loire, a base de Chenin Blanc e Négrette, tintos e rosés de Touraine elaborados com a Cabernet Franc e outros que não puderam obter as denominações menores por serem elaborados com uvas não permitidas na DO, como é o caso do Chardonnay, do Pinot Noir e do Malbec 2017 que ainda estava nas barricas.
   O proprietário e enólogo, Xavier Weisskopf, e sua esposa nos receberam muito calorosamente e nos ofereceram uma degustação de todo o seu portfólio, inclusive a safra 2017 do Pinot Noir, do Cabernet Franc e do Malbec que ainda estavam na barrica. Foi uma experiência gratificante! É a primeira safra de produção do Malbec, que estava em barrica a oito meses e seria engarrafado em duas semanas. No olfato, os aromas de frutas negras e pimenta preta se mostraram muito intensamente e, apesar de extremamente jovem, se mostrou redondo e equilibrado. Um grande vinho! Mas o que mais me chamou a atenção foi o branco elaborado com a uva Négrette, safra 2015. Bem no estilo dos brancos que mais me agradam, passou 12 meses em barrica, apresenta aromas e sabores de baunilha, amêndoas, frutas brancas e cítricas, acidez alta e final longo. Não conhecia a uva e me encantei tanto que Xavier me presenteou com uma garrafa. Segundo ele, este vinho tem potencial de guarda de 15 a 20 anos! O difícil vai ser esperar todo este tempo pra abri-la.
   Finalmente em Sancerre, visitamos a vinícola Fournier Pére&Fils que possui vinhedos também nas vizinhas Menetou-Salon e Pouilly-Fumé. Os vinhedos de Sancerre estão localizados em uma área elevada e, durante a visita, pudemos ter uma visão panorâmica de toda a região, chegando a ver parte dos vinhedos das regiões vizinhas. A vinícola é muito bem equipada e o seu portfólio também muito vasto. A grande maioria dos vinhos são brancos secos elaborados com a Sauvignon Blanc e apenas um tinto a base de Pinot Noir. Tivemos a oportunidade de degustar estilos diferentes de Sauvignon Blanc, não apenas das três regiões dos vinhedos centrais como também de Touraine, e conferir como o solo mineral desta região influencia no estilo mineral dos vinhos.
   Eu sempre tive um grande apreço pelos Sauvignon Blanc dos vinhedos centrais do Vale do Loire pela alta mineralidade presente nos aromas e sabores. Visitar os vinhedos e pegar nas pedras de silex presentes em grande quantidade, cheirar o solo e depois degustar os vinhos produzidos com uvas que saíram dali e sentir aquele mesmo aroma mineral das pedras, só fez reforçar em mim a convicção sobre a importância do terroir sobre a bebida dos deuses. O vinho é o resultado da soma de uma infinidade de fatores e por isto é uma bebida tão especial. Cada garrafa é única, cada uva tem suas características, cada região imprime seu solo e o seu clima e cada enólogo impõe a sua marca. Neste mundo tão vasto de possibilidades, estamos sempre nos surpreendendo. Não existe rotina no mundo dos vinhos, o que faz a paixão e a vontade de aprender só aumentar a cada dia.
   Visto que as lembranças me deixaram sentimental, é hora de me despedir! Na próxima publicação irei encerrar os relatos desta viagem falando sobre a maravilhosa região de Champagne. Desejo a todos muitas surpresas vínicas e até o próximo texto! Cheers!
 

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